“Essa é uma daquelas histórias que se alguém te conta tu não acredita”
Cerca de onde eu morava costumava haver uma praça. Não era uma daquelas praças grandes, contemplada com uma igreja, um coreto, vários bancos e um pipoqueiro. A praça da qual eu falo era simples, tão simples que até mesmo o pipoqueiro se esquivava de permanecer ali por não acreditar em possibilidade de lucro naquele local. Ela possuía apenas um banco, que circundava uma velha árvore como uma muralha circunda um forte a beira do colapso.A árvore, apesar de velha, era grande e lançava uma sombra agourenta por toda região daquele minúsculo lugar.
Recordo-me que costumava sentar ali depois dos meus intermináveis passeios de bicicleta, para poder descansar um pouco e impedir que o sol continua-se fustigando a minha visão. Algumas senhoras também se aninhavam na segurança da pequena praça após o seu retorno da feira, para poder reclamar do aumento dos preços e comentar sobre a filha da dona Laurinha que, agora que já era moça, não cansava de “exibir aquele corpinho” com as menores quantidades de roupas possíveis. Sem falar dos diversos casais apaixonados que se entregavam á delícias e devassidões embaixo daquela copa frondosa. Mas tudo isso foi a muito tempo, foi antes de que Matilde se mudasse para lá.
Matilde era um daqueles personagens urbanos que fazem parte da história de qualquer criança. Ela era velha, negra, pobre e louca. Uma combinação de ingredientes que atrairia a atenção de qualquer menino curioso e comigo não poderia ser diferente.
Matilde chegou com o seu arsenal de tralhas, montou acampamento e hasteou sua bandeira sobre aquele reino desconhecido. A partir daquele momento a praça era dela.
No princípio destestei Matilde. Eu não podia mais sentar ali e desfrutar daquela sombra, pois tinha um grande temor daquela mulher. Ela fedia a lixo estragado e urina velha e suas palavras eram completamente desconexas. Certa vez, quando me aproximei mais do que devia, ela cuspiu em mim e tentou me acertar com uma latinha de coca vazia.
Os dias foram passando e Matilde continuava lá. Eterna. Indestrutível. Sempre me perguntei onde ela fazia suas necessidades, o que ela comia, como nunca ficava doente. O certo é que Matilde sobreviva dia a dia e aquilo me intrigava de uma maneira sobrenatural. Acabou que simpatizei-me com ela. De vez em quando tentava puxar algum tipo de conversa ou simplesmente lhe oferecia comida. Foi dessa maneira que descobri a única informação que sei até hoje daquele ser misterioso: seu nome. Ela me disse triste e cansada:
-Meu nome é Matilde meu filho, Matilde.
Certa vez cheguei até a pensar que Matilde era um daqueles anjos do qual o padre falou, que se transformavam em mendigo para testar a bondade dos homens.
Os anos passaram e eu esqueci Matilde. Tinha crescido. Minhas preocupações se voltaram para as garotas e para os amigos. Não havia mais lugar para ela em minha adolescência.
Foi então que ao voltar de um de meus passeios noturnos eu a vi estendida ao chão, estremecendo e babando. Larguei a bicicleta. Corri desesperadamente para ampará-la. Era um ataque de convulsão. Segurei sua cabeça para que ela parasse de se chocar contra o solo e gritei por ajuda. Uma moça que passava por ali se aproximou a passos rápidos e me perguntou o que estava acontecendo. Desesperado, expliquei que era um ataque epilético e pedi para que ela ligasse par uma ambulância, pois eu estava com ambas as mãos ocupadas segurando a cabeça de Matilde. Ela, com a voz trêmula, disse que havia esquecido o celular em casa e prontamente se ofereceu pra trocar de lugar comigo, para que eu pudesse pegar meu aparelho. No instante em que eu ia retirar minhas mãos de sua cabeça a coisa mais estranha que já ocorreu comigo aconteceu. Matilde agarrou meus pulsos com uma força descomunal. Minha visão se apagou. Lembro de ter ouvido um grito de dor enquanto o mundo se desfazia ao meu redor.
Quando novamente abri os olhos eu estava em um avião, em um corpo que não era meu. Máscaras de oxigênio estavam dispersadas por todos os assentos. Os passageiros estavam em pânico e o veículo aéreo fazia uma queda de praticamente quarenta e cinco graus. Um rapaz ao meu lado agarrava o meu ombro e gritava desesperado:
- Por que ela não atende? Meus Deus! Me dá um número! Meus Deus! |Só preciso de um número.
Aquilo parecia um sonho, eu não tinha total controle sobre minhas ações. Um número? O único que eu consegui lembrar naquela hora foi o meu próprio número de celular. Tentei falar mas minha boca se mexia muito lentamente. O rapaz discava ferozmente cada dígito que eu pronunciava. De repente eu estava de volta. Matilde e a garota ainda estavam ali. Ela já não mais segurava os meus pulsos, mas a marca de suas unhas permaneceram por muito tempo depois desse incidente. Matilde estava calma, serena, parecia estar dormindo. Quanto tempo se passara? Eu teria desmaiado? A garota parecia estar na mesma posição momentos antes de minha visão se apagar. Ela me olhava com uma expressão assustada. Nesse instante meu celular tocou. Atendi. Ao ouvir barulhos estranhos e palavras como “meu amor”, meu corpo estremeceu e eu instintivamente passei o celular para as mãos da garota. Imediatamente ela começou a chorar e a declamar as mais lindas confissões de amor.
Foi tudo muito rápido e estranho. A garota devolveu o celular e saiu correndo e chorando lamentavelmente. Matilde levantou-se e foi para o seu barraco.
Depois desse dia nunca mais vi Matilde. Hoje, ainda acho que ela era um daqueles anjos do qual o padre falou.
sábado, 10 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Este ficou muito bom hehe!
ResponderExcluirComo eu sei como ele se formou estou tentando lembrar de alguma parecida que possa ter dado origem a isso. Sabe, acho que estas histórias de sonhos são como vitaminas feitas em liquidificador. Você pega um monte de histórias que conhece e seu cérebro bate elas até se tornarem uma coisa nova e única. É impossível identificar o que deu origem a ela, mas se vc se concentrar muito pode identificar alguns sabores que você já sentiu antes.
Minha melhor opinião é Skeleton Key (A chave mestra). Você já viu esse filme? Bate com a velha negra, a loucura, e com a troca de corpos, muito embora no seu caso ela tenha sido diferente. Se vc viu acho que tem muito dele na Velha da Praça, se não viu, bom, veja hehe, acho que você vai gostar.
De qualquer maneira, o melhor que se pode tirar de um sonho, além da lembraça, é o aprendizado. Esta foi uma boa história. Se o subconsciente pode fazer uma assim, o consciente também pode. Sugiro investir mais neste estilo.