Eu tomo melancolia
Eu fumo compreensão
Um simples sorriso me guia
Em uma noite de solidão
Aqui, nesse canto escondido de bar, nessa valsa imperfeita de penumbra, eu gasto horas na mesma posição morta e catatônica. Vou deixando-me ficar. Esquecido da vida. Esquecido da morte. Esquecido da tristeza e agonia que moram do lado de fora daquelas portas de vidro e que um homem alto de terno não deixa aqui entrar.
Aqui, nesse meu pequeno reino solitário, minha retina é queimada pela visão de uma estátua sentada no balcão do bar. Suas pernas (que lindas pernas) se entrelaçam e se mesclam ao banquinho de mogno já descascado pelo tempo. Suas pequenas mãos manuseiam com maestria a taça de martini e o cigarro pequeno, fino e importado de algum país esquecido pelos jornais e noticiários. Uma deusa de vestido carmim. As cachoeiras cachos de seus cabelos morenos descem por suas costas nuas que o corte estilizado (bendito seja) permite que o mundo veja. Quem seria ela?
Eu tomo a agonia
Eu fumo a desolação
Uma fraca luz me guia
Em uma noite de escuridão
Com um gesto delicado ela chama o garçom. Simples gesto. Poderia guiar minha vida se quisesse, mas ela nem sequer olha a sua volta. Mais um martini. Quantos já terão ido dentro daquele lindo corpo, banhando seus órgãos internos, levando a essência de Baco à sua corrente sanguínea?
Ela, completamente perdida em si mesma está; e eu nela. A essa hora parece que todo o salão sumiu. Só restamos eu e ela. Estamos tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante. Um universo nos separa. Ela com sua beleza e depressão, eu com o peso da idade e com essa amargura ingrata.
Eu tomo a luz do dia
Eu fumo negro alcatrão
Uma deusa de bar me guia
Para a minha própria destruição
Vou falar com ela. Penso comigo mesmo. Não. Não teria a coragem. A natureza deu-me os versos, mas não a desenvoltura para declamá-los. Linda moça solitária, como gostaria de tê-la em meus braços. Aí você permanecerá. Isolada em si mesma. Uma jóia cobiçada lançada ao fundo do mar. É triste pensar assim. Porque não podes ser feliz? Porque não podes ser feliz ao meu lado? Serias feliz ao meu lado? Não. Creio que não. Nunca consegui trazer alegria aos outros. Afoguei minha vida em ciúmes, egoísmo e ganância. Há quanto tempo estou aqui? Já não sei mais. As horas se foram e eu nem vi. O garçom me olha com um olhar cansado. A vida se foi e eu nem vi. Quanto tempo ainda me resta? Morri? Não. Não morri, mas deixei de viver a muito tempo. Quando foi a última vez que sorri? Matei-me como um kamikaze suicida. Sufoquei um menino simples e alegre que vivia dentro de mim. Sufoquei-o até ele ficar roxo e mole, até abandonar a vida em minhas mãos. Sim. Foi nesse instante. Lembro-me melhor agora. Foi nesse instante que eu morri e uma massa de carne, autômato megalomaníaco da estupidez humana, foi lançada no mundo.
Adeus moça. Adeus garçom. Adeus bar. Adeus todos. Vou-me. Tenha mais sorte do que eu menina. Não sufoque essa pequena garotinha. Sorria. Seja feliz.
Eu tomo a poesia
Eu fumo a redenção
Uma louca avenida me guia
Para minha própria libertação
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário