quinta-feira, 1 de abril de 2010

Vaca de Presépio

Dizem que não sou de falar muito, minha existência é apenas observar; e é exatamente isso que tenho feito nesses 2000 anos.
Devo confessar, porém, que não tenho visto muito coisa. É tudo sempre igual. Fico o ano inteiro trancada dentro de um armário ou guarda roupa. Convivo com copos de champanhe, taças de vinho, uísques importados e lençóis velhos. Às vezes me embrulham em um maço de jornais com medo de que eu me quebre ou que eu veja o que eles guardam em seus recintos. Mas o que posso dizer? Sou apenas uma vaca de presépio.
Quando finalmente chegam os dias que antecedem o nascimento eles me retiram da escuridão e me colocam sob a luz do dia e das estrelas. Iluminam-me, me enfeitam, alguns me constroem, outros me compram, mas de qualquer forma estou sempre lá. Sou a Vaca do presépio.
Na montagem do cenário minha posição é a das mais variadas. Uns me colocam à esquerda da manjedoura, outros à direita, muitos poucos atrás da mesma , mas nunca no centro...nunca. Quem me dera ter nascido na Índia, eles sim sabem tratar uma vaca; mas fazer o que? Sou apenas uma vaca de presépio.
Então todos os anos são iguais. Os reis magos eu já sei de cor. Como alguém consegue receber todos os anos os mesmos presentes. Ouro até vai, mas incenso? E que diabos é essa tal de mirra? Mas eles estão sempre lá, presenteando aquele menino na manjedoura. Sentem por ele uma espécie de fascinação, talvez mais do que isso; consigo ver em seus rostos esculpidos, é como se o adorassem, como se o garoto fosse uma espécie de deus ou algo assim. Mas isso são loucuras de uma vaca é lógico, afinal que tipo de deus nasceria em uma manjedoura? E ainda mais sendo observado por uma vaca, uma vaca de presépio.
Seus pais também são um mistério. Sua mãe parece que está encantada, como se tivesse recebido o maior presente do mundo, oras é apenas um moleque, ele está limpo e sorrindo, é como o representam no presépio. Mas na verdade não foi bem assim que aconteceu, ele estava sujo de sangue. E sorrindo!? Onde já se viu? Esses humanos são mesmo esquisitos, onde no mundo uma criança recém nascida fica sorrindo, ela esperneia como se estivesse com o diabo no corpo. O pai, em minha opinião, é a melhor figura desse teatro. Sua feição é ainda um mistério que ao longo desse anos não consegui decifrar, mas eu acho que ele está em dúvida. É um rosto que mistura dúvida e tentativa de simular uma alegria. O que será que ele pensa? Provavelmente deve achar que o filho não é dele ou deve estar se perguntando se o moleque vai viver por muito tempo, afinal estamos em um presépio e o garoto está deitado em uma manjedoura, as condições de higiene não são as das melhores. Mas vai saber né? Sou apenas uma vaca mesmo.
Mas o mais engraçado são as pessoas. Param nas vitrines dos shoppings, nos parques, nos cantos das casas e ficam nos observando, admiradas e boquiabertas. Alguns, é lógico, não dão nem bola, passam direto, mas muitos param e até surgem alguns comentários a meu respeito:
-Olha mãe, que vaquinha bonitinha.
-Olha a vaquinha que graça.
Mas todas as atenções, pra variar, são pro tal do menino jesus. E todo ano é a mesma ladainha:
- Olha o menino Jesus.
- Olha que lindo o menino Jesus.
-Olha nosso salvador.
Salvador de quê afinal? É só um garoto meu deus. O que deu nesse pessoal? O melhor é o que dizem da mãe do moleque:
- Olha a virgem Maria.
Essa é boa viu! Posso até ser uma vaca, mas não sou boba, entendo dessas coisas. Mas como pode essas pessoas pensarem isso? A danada da mulher acabou de ter um filho gente... como vocês me dizem que ela é virgem. Que parte do “ ter um filho “ esses caras não entendem? Mas toda essa palhaçada dura pouco. Ficamos um tempo expostos e depois voltamos pros armários e guarda roupas, alguns até nos destroem para nos construir no próximo ano. Tudo volta ao normal, nós voltamos pro esquecimento e os humanos pra suas vidas normais, nada muda, tudo fica exatamente igual como estava antes. Esse teatro de nascimento não muda a rotina das pessoas e nem a nossa, mas esqueçam; meus comentários não valem muita coisa, afinal, sou apenas uma vaca... uma vaca de presépio.

Um comentário:

  1. Aaaa a vaquinha!
    Eu tb adoro a vaquinha!
    Na verdade eu acho que ela é mais interessante de todas as figuras do presépio!
    Eu já procurei, mas nunca consegui encontrar quem foi a mente criativa que introduziu uma vaca numa cena do oriente médio, nunca consegui entender isso. Não faz o menor sentido ter uma vaca ali.

    Bom, vê-se ai o resultado! Colocaram a bicha deslocada ali e agora ela fica dando palpite em tudo!

    ResponderExcluir