domingo, 26 de setembro de 2010

Futuro de Mãe

Quando eu era pequeno
E vivia a perguntar
- Mãe, como será o futuro?
Minha mãe, sempre calma, costumava a me olhar
- O futuro... relaxe meu filho, muita água,
Por de baixo da ponte, ainda tem que rolar.

Aos poucos fui crescendo
E muita água foi rolando
Por de baixo da ponte, viaduto, dentro de tubulações,
Transbordando nos riachos, causando inundações
Caindo em cascatas, turbulento espetáculo
Matando minha sede, trazendo-me ao regato
Assoreando muitas margens, destruindo vilarejos
Uma fúria impetuosa, saciando o meu desejo
Abrindo rios caudalosos, sem escrúpulos e sem par
Varrendo toda a natureza para, finalmente, encontrar o seu mar

E já depois de grande
Quando volto a perguntar
- Mãe, o futuro, como será?
Ela, do mesmo jeito, ainda me olha
- Calma meu filho, há muita água pra rolar.

Aqui não é Jerusalém!

Era uma tarde quente. O sol ardente queimava as folhas de latão do trailer. O ar dentro daquela fornalha estava parado e o ambiente era de rendição àquela sonolência inevitável que vem nos assaltar depois do almoço.
Matias saiu de sua morada errante e foi para fora para tomar um pouco de ar fresco. Abriu a porta. Sentou-se na escadinha da entrada e observou os outros trailers que estavam posicionados em círculo. Coçou o volumoso bigode. Acendeu um cigarro. Suspirou. Aquilo tudo era dele.
-Dez anos. Pensou consigo. Ou teriam sido mais? Já não se recordava.
Fazia um bom tempo que já estavam na estrada. Percorriam as cidades do nordeste de ponta a ponta levando o espetáculo a toda cidade em que a prefeitura estivesse disposta a financiar. Um dinheirinho bom e honesto, sem dúvida. E ainda contribuíam para a proliferação da arte itinerante, coisa que no Brasil estava cada vez mais raro.
Apagou o cigarro na grama. Levantou-se e foi até o trailler do Augusto, o contra regra. Bateu três vezes, de leve, na porta. Um rosto calvo e de óculos apareceu primeiro, logo em seguida um corpo magro e maltratado pelo tempo veio lhe recepcionar
- Matias! Está quase tudo pronto!
-É bom que esteja mesmo Augusto. A encenação da Paixão de Cristo tem que ser impecável.
- E será meu senhor. E será.
- As fantasias dos romanos estão prontas?
- Estão sim senhor.
- E os preparativos para a crucificação? A cruz, o sangue e toda aquela parafernália de iluminação?
- Faltam só mais alguns ajustes senhor. Mas em dois dias estará tudo como o senhor pediu.
-Perfeito Augusto. Perfeito. Concluiu Matias esfregando empolgadamente as mãos.
A encenação da Paixão seria dali a três dias. Ele havia ensaiado a trupe exaustivamente. O figurino estava pronto. Tudo corria como o planejado.
- Essa vai ser uma encenação e tanto meu amigo. Pensou alto Matias.
Augusto simplesmente concordou com um leve aceno de cabeça. Gostava do patrão pensou ele. Apesar de ter aquele jeito de general rabugento era uma boa pessoa.
- Tu sabe onde está Clementina ?
-Não senhor. Respondeu timidamente o contra regra. A vi sair às nove e poucas da manhã. Carregava o rosário. De certa foi à igreja.
-Irei lá verificar então. Ta precisando de algo da cidade Augusto?
-Não senhor, muito obrigado.
Igreja, onde já se viu, pensava Matias consigo mesmo. Clementina nunca fora religiosa. Ia às missas de vez em quando, mas era somente em épocas festivas ou quando havia quermesse. O que tinha dado nela para querer ir à igreja todos os dias?
Já havia alguns dias que Matias vinha notando um comportamento estranho em sua companheira. Saía todas as manhãs para ir à igreja. Voltava tarde e nunca comentava muito coisa do que tinha se passado durante o dia. Quando questionada sobre o que estivera fazendo o dia inteiro dava respostas vagas e procurava mudar rapidamente de assunto.
Aquela situação estava por começar a incomodar Matias de uma maneira nada confortável. Jurava que podia ouvir risinhos escarnecedores por suas costas quando ele passava entre os trailers. Será que Clementina estava traindo-o? Não, ela não poderia? Ou será que...? Mas se fosse com quem seria? Matias vinha se torturando com essas suspeitas.
Talvez para tirar aquela preocupação da cabeça ou por mera curiosidade ele resolveu ir até a tal igreja que ficava não mais que alguns quilômetros dali. Foi até a casa, apanhou as chaves do carro e se dirigiu ao local.
Entrando na pequena capela de estilo barroco Matias se ajoelhou e fez o sinal da cruz. Espiou por entre os bancos, mas só pode ver um par de velhinhas já tão carcomidas pelo tempo que seus corpos pareciam se mesclar com os bancos desgastados e as paredes sem reboco.
Onde estaria Clementina? Pensou Matias.
Foi até o altar e benzeu-se novamente. Voltou até a porta da igreja e ficou contemplando o teto caindo aos pedaços. O que será que Clementina via de tão especial em um lugar como aquele.
Foi então que um senhor baixinho, calvo e com um sorriso que parecia querer abraçar o mundo se aproximou e lhe perguntou:
-Procura algo bom irmão?
Ao contemplar aquela criatura amável Matias logo reconheceu ser ele o padre da pequena capela devido as suas vestes sacerdotais.
- Boa tarde seu padre. Tudo bom com o senhor? Olha, vim aqui procurar minha mulher? É uma morena alta e esbelta. Cabelos cacheados a altura dos ombros e olhos bem castanhos. Têm vindo muito a essa igreja ultimamente. O senhor com certeza já deve tê-la visto não?
- Rezo as missas aqui todos os domingos meu jovem. E conduzo o grupo de oração na quarta e na sexta. E posso jurar pelo nosso senhor Jesus Cristo e sua santa Mãe que nunca vi tal mulher.
A raiva subiu do peito para a cabeça de Matias mais rápido que um tiro de escopeta. Tentou se controlar, mas não conseguiu
- Como assim? O senhor está me dizendo que minha mulher nunca veio a essa igreja?! Que ela está me traindo?! É isso o que o senhor está insinuando? Esbravejou Matias com o pobre velhinho
- De modo algum meu senhor. De onde o senhor tirou essa idéia? Só disse que nunca vi a mulher que o senhor me descreveu. Afinal não estou o tempo todo aqui na igreja. É possível que ela tenha vindo em outro horário também. Não é verdade?
O assustado padre não conseguiu terminar seu discurso, pois Matias já saíra marchando de volta ao automóvel. Entrou descontrolado no veículo e bateu a porta com tanta força que se o carro fosse um pouco mais frágil ela teria ficado por lá mesmo.
Saiu desgovernado invocando todos os demônios que conhecia e xingando Clementina de nomes tão esdrúxulos que por motivo de censura e bom senso creio não ser necessário relatar aqui.
Sua fúria era tanta que decidiu não ir para casa de imediato. Se encontrasse Clementina naquele estado de espírito sabe-se lá Deus o que poderia acontecer. Estacionou no botequim para tomar uma e tentar relaxar a cabeça. Quem sabe isso tudo não era apenas um mal entendido?
Matias sentou-se e ordenou uma cerveja gelada, coisa bem difícil por aquelas bandas devido aos péssimos estados dos refrigeradores, e um rabo de galo pra acompanhar.
Tomou uma, duas, três e na quarta sua fúria já tinha passado. Estavam juntos à quase dois anos. Ele era rude, verdade, mas nunca tratara mal Clementina. Tudo não deveria ser mais que um mal entendido, ele iria para casa conversar com ela e ela lhe diria que ia na igreja rezar de manhã e ficava passeando pela cidade durante o resto do dia, ou então que o grupo de oração tinha se mudado para a casa de uma das irmãs de lá e por isso o padre não a vira na capela, ou quem sabe...
Derrepente, como um ladrão que vem de madrugada, a espada de Demóclites caiu sobre a cabeça do nosso pobre Matias. Não poderia haver dúvida. Sim era ela. Bem ali. A apenas alguns metros do bar. Passeando de mãos dadas com um moço jovem e de cabelos longos que muito lhe lembrava um personagem bem conhecido.
- Meu Deus. Pensou Matias. Minha mulher está me traindo com Jesus!
Na verdade, o “Jesus”, era o Jorge, personagem principal do teatro de Matias. Matias confiava em sua mulher cegamente e por este motivo nunca dera muita atenção aos longos olhares que ele lançava a sua mulher diariamente.
-Maldito seja. Se eu o arrebento agora quem vai substituí-lo no papel principal? A peça é daqui a três dias apenas.
Foi quando subitamente, como acontece com aqueles gênios que incompreensivelmente tem um espasmo de criatividade, Matias teve uma idéia tão genial e ao mesmo tempo tão diabólica que nem sequer lembrou-se de seguir os dois pombinhos para ver se aquele namorico tinha ido a coisas mais sérias.
Bebeu todas no bar. Voltou pra casa completamente embriagado. Entrou no trailer. Clementina estava ali o esperando.
- Sua vagabunda. Me traindo na cara de todo cidade. Some da minha frente.
Clementina, vendo que sua traição tinha sido descoberta e que Matias já estava completamente bêbado e violento. Juntou suas coisas o mais rápido que pode e saiu correndo do trailer do dono do teatro.
Matias se jogou na cama e chorou amargamente sua má sorte.

Na manhã seguinte, Matias acordara tendo a certeza que tivera um sonho ruim. Aquela história de ter pego sua namorada com o seu ator principal só poderia ser fruto de sua cabeça que agora latejava bruscamente por causa da ressaca.
Ao levantar-se e andar pela casa, ao ver à desordem das coisas, roupas espalhadas, cadeiras e panelas pelo chão. Ele novamente se lembrou na noite anterior. Sim, era a mais pura verdade. Seu relacionamento tinha se espatifado como uma jaca ao se encontrar com o solo. Subitamente, o plano que lhe ocorrera no botequim, também veio à sua memória.
-Ah Jorge! Seu safado sem vergonha. Me roubou a mulher né. Espere pra ver.
Matias se trancou em seu trailler e não falou mais nada até o dia da estréia da peça.
A Paixão de Cristo seria encenada ao ar livre, em um grande espaço reservado pela prefeitura. A cidade inteira estaria lá. O destaque principal seria dado ao caminho do Calvário, onde Jesus carregaria a sua cruz por uma extensão de quase duzentos metros, iluminada apenas por tochas que acompanhavam o caminho com suas luzes bruxuleantes.
Esse é o meu grande momento, pensava Jorge consigo. Conseguira aquele papel sem muito esforço ele confessava. Foi só ter arrastado asa para a namorada do patrão que logo ela fez a cabeça do corno para que ele o contrata-se.
-Esse Matias é mesmo um paspalhão, divertia-se Jorge.
A peça transcorria perfeitamente. A multidão se emocionava a cada cena e muitas lágrimas rolaram quando Jesus foi preso e condenado. Chegará então o famoso momento do Calvário.
Jorge ia caminhando com sua pesada cruz pelo caminho de sua condenação. Um urro partiu do centurião que estava às suas costas.
-Vamos rei dos judeus!
Uma tremenda de uma chicotada lhe atingira o lombo de uma forma tão dolorida que ele quase perdeu o equilíbrio e caiu.
-Caramba Ricardo, bate mais devagar. Sussurrou Jorge por cima dos ombros.
-Ta cansado Jesus.
E mais uma chicotada lhe comeu o coro das costas. Jorge olhou para trás para dar uma bronca em Ricardo que lhe batia com tamanha violência e que surpresa! Era o próprio Matias que interpretava o centurião.
Xingamentos e chicotadas comiam soltas por todo o caminho. As costas de Jorge já estavam lavadas em sangue, a multidão se horrorizava com a vivacidade da encenação e Matias ria como um demônio, aproveitando cada momento da sua vingança.
Foi então que Jesus não pode mais suportar. Largou a cruz e partiu pra cima do centurião aos murros e pontapés.
A multidão, enraivecida gritava:
-Vai Jesus! Pega ele! Mostra pra ele que aqui não é Jerusalém. Aqui é a PARAÍBA!

domingo, 13 de junho de 2010

Oração do Soldado Arrependido



Letra:

Por aqueles que torturei
Pelo choro que não ouvi
Tantas vidas que arruinei
Tantos sonhos que parti

Pelas madrugadas sombrias
E os massacres por puro rancor
Pelos estupros e orgias
Pela inocência roubada em flor

Pela glória vã da cobiça
Os amigos que deixei pra trás
Pelo sangue nas mãos e na mira
De um disparo que não volta mais

Pelo tiro mal calculado
E a estupidez de ser quem eu sou
Por ser esse mísero soldado
Perdoai-me Senhor

Zé Dias



Letra:

Sou feito de muito barro
Que comi de uma parede
Das lascas de muitos jarros
Que traziam água pra sede

Sou feito da rolimã
Do carrinho em disparada
bola de gude, no afã,
Finalmente encaçapada

Sou feito do livro primeiro
Que Dona Rosa me deu
Pergunto até hoje, cabreiro
Patinho Feio será que sou eu?

Sou feito de um relógio
Que parecia maluco
Gritava de hora em hora
falando cuco-cuco

Sou feito do amor primeiro
Que gota a gota se fez Pingo
Mistura de prazer e dor
Paixão de domingo a domingo

Sou feito de ousadia
Quando homem me tornei
Uma noite surgiu Maria
E sem saber, a amei

Sou feito de uma surpresa
Que por essa não esperva
Disseram de um nascimento
Me acordaram de madrugada

Sou feito destes momentos
Porém não há conclusão
Enquanto houver sentimento
Estarei em construção...

Ode à Gará



Letra:

Caro amigo não chores mais
A vida é mesmo assim
Ela vem colher o que não plantou
Vem cobrar o pouco que restou

Mas você é mais forte
Que a dor e até a própria morte
Não podem roubar o sonho
Que te faz viver

E esquecer
Aquilo que se foi
Mas saibas que estarei aqui
Quando precisar eu vou te ouvir

E lembre-se que Destino
Nos deu o seu violão
E a melodia somos nós
Que compomos
E cantamos
E tocamos
E dançamos

Sinal Vermelho



Letra:
Quem é você que eu vi passar
Em frente ao sinal vermelho
Com esse seu jeito de caminhar
Fazendo poses no espelho

Quem é você que sorria assim
Como se o mundo não existisse
Uma brisa leve que não tem fim
Trazendo paz aos dias tristes

Ela caminha sem se preocupar
Com as coisas da vida
Ela é livre e quer voar
Pra onde nada mais exista

Então voa e leva um beijo meu
Aonde quer que você vá
Um simples sinal me tornou o seu
E fez meu mundo parar naquele instante

terça-feira, 13 de abril de 2010

Manhã Tom de Rosa

Se eu não acordasse com uma bela mulher em meus braços jamais teria notado o tom de rosa que a manhã paulistana me proporcionava. Provavelmente caminharia até o ponto de ônibus com a mesma indiferença de sempre, bocejando e desejando que o dia acabasse depressa para que eu pudesse regressar para casa e tentar recuperar as horas de sono perdidas na madrugada boêmia. Mas hoje foi diferente. Simplesmente porque ela estava lá o mundo pareceu-me um pouco mais colorido e menos ameaçador. O cinza das ruas era de um tom leve, que não chegavam a entristecer tanto o coração. As poucas árvores que me fazem escolta pelo caminho pareciam pintadas de um verde mais alegre e contagiante. Até o vermelho do farol que parava o trânsito em uma confusão caótica era algo belo e inspirador.

Tudo foi mais leve aquela manhã. Meu coração estava calmo como um lago. Minha mente estava limpa como um céu sem nuvens. Minha vida era alegre e eu estava em paz com Deus. E tudo por causa de uma mulher, uma mulher bonita.

MEU DEUS! Como os homens são simples!

sábado, 10 de abril de 2010

A Velha da Praça

“Essa é uma daquelas histórias que se alguém te conta tu não acredita”

Cerca de onde eu morava costumava haver uma praça. Não era uma daquelas praças grandes, contemplada com uma igreja, um coreto, vários bancos e um pipoqueiro. A praça da qual eu falo era simples, tão simples que até mesmo o pipoqueiro se esquivava de permanecer ali por não acreditar em possibilidade de lucro naquele local. Ela possuía apenas um banco, que circundava uma velha árvore como uma muralha circunda um forte a beira do colapso.A árvore, apesar de velha, era grande e lançava uma sombra agourenta por toda região daquele minúsculo lugar.

Recordo-me que costumava sentar ali depois dos meus intermináveis passeios de bicicleta, para poder descansar um pouco e impedir que o sol continua-se fustigando a minha visão. Algumas senhoras também se aninhavam na segurança da pequena praça após o seu retorno da feira, para poder reclamar do aumento dos preços e comentar sobre a filha da dona Laurinha que, agora que já era moça, não cansava de “exibir aquele corpinho” com as menores quantidades de roupas possíveis. Sem falar dos diversos casais apaixonados que se entregavam á delícias e devassidões embaixo daquela copa frondosa. Mas tudo isso foi a muito tempo, foi antes de que Matilde se mudasse para lá.

Matilde era um daqueles personagens urbanos que fazem parte da história de qualquer criança. Ela era velha, negra, pobre e louca. Uma combinação de ingredientes que atrairia a atenção de qualquer menino curioso e comigo não poderia ser diferente.
Matilde chegou com o seu arsenal de tralhas, montou acampamento e hasteou sua bandeira sobre aquele reino desconhecido. A partir daquele momento a praça era dela.

No princípio destestei Matilde. Eu não podia mais sentar ali e desfrutar daquela sombra, pois tinha um grande temor daquela mulher. Ela fedia a lixo estragado e urina velha e suas palavras eram completamente desconexas. Certa vez, quando me aproximei mais do que devia, ela cuspiu em mim e tentou me acertar com uma latinha de coca vazia.

Os dias foram passando e Matilde continuava lá. Eterna. Indestrutível. Sempre me perguntei onde ela fazia suas necessidades, o que ela comia, como nunca ficava doente. O certo é que Matilde sobreviva dia a dia e aquilo me intrigava de uma maneira sobrenatural. Acabou que simpatizei-me com ela. De vez em quando tentava puxar algum tipo de conversa ou simplesmente lhe oferecia comida. Foi dessa maneira que descobri a única informação que sei até hoje daquele ser misterioso: seu nome. Ela me disse triste e cansada:

-Meu nome é Matilde meu filho, Matilde.

Certa vez cheguei até a pensar que Matilde era um daqueles anjos do qual o padre falou, que se transformavam em mendigo para testar a bondade dos homens.
Os anos passaram e eu esqueci Matilde. Tinha crescido. Minhas preocupações se voltaram para as garotas e para os amigos. Não havia mais lugar para ela em minha adolescência.

Foi então que ao voltar de um de meus passeios noturnos eu a vi estendida ao chão, estremecendo e babando. Larguei a bicicleta. Corri desesperadamente para ampará-la. Era um ataque de convulsão. Segurei sua cabeça para que ela parasse de se chocar contra o solo e gritei por ajuda. Uma moça que passava por ali se aproximou a passos rápidos e me perguntou o que estava acontecendo. Desesperado, expliquei que era um ataque epilético e pedi para que ela ligasse par uma ambulância, pois eu estava com ambas as mãos ocupadas segurando a cabeça de Matilde. Ela, com a voz trêmula, disse que havia esquecido o celular em casa e prontamente se ofereceu pra trocar de lugar comigo, para que eu pudesse pegar meu aparelho. No instante em que eu ia retirar minhas mãos de sua cabeça a coisa mais estranha que já ocorreu comigo aconteceu. Matilde agarrou meus pulsos com uma força descomunal. Minha visão se apagou. Lembro de ter ouvido um grito de dor enquanto o mundo se desfazia ao meu redor.

Quando novamente abri os olhos eu estava em um avião, em um corpo que não era meu. Máscaras de oxigênio estavam dispersadas por todos os assentos. Os passageiros estavam em pânico e o veículo aéreo fazia uma queda de praticamente quarenta e cinco graus. Um rapaz ao meu lado agarrava o meu ombro e gritava desesperado:

- Por que ela não atende? Meus Deus! Me dá um número! Meus Deus! |Só preciso de um número.

Aquilo parecia um sonho, eu não tinha total controle sobre minhas ações. Um número? O único que eu consegui lembrar naquela hora foi o meu próprio número de celular. Tentei falar mas minha boca se mexia muito lentamente. O rapaz discava ferozmente cada dígito que eu pronunciava. De repente eu estava de volta. Matilde e a garota ainda estavam ali. Ela já não mais segurava os meus pulsos, mas a marca de suas unhas permaneceram por muito tempo depois desse incidente. Matilde estava calma, serena, parecia estar dormindo. Quanto tempo se passara? Eu teria desmaiado? A garota parecia estar na mesma posição momentos antes de minha visão se apagar. Ela me olhava com uma expressão assustada. Nesse instante meu celular tocou. Atendi. Ao ouvir barulhos estranhos e palavras como “meu amor”, meu corpo estremeceu e eu instintivamente passei o celular para as mãos da garota. Imediatamente ela começou a chorar e a declamar as mais lindas confissões de amor.

Foi tudo muito rápido e estranho. A garota devolveu o celular e saiu correndo e chorando lamentavelmente. Matilde levantou-se e foi para o seu barraco.

Depois desse dia nunca mais vi Matilde. Hoje, ainda acho que ela era um daqueles anjos do qual o padre falou.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Primeira Pedra

Perdoem-me.
Por mais longa que seja, eu preciso contar minha história. Preciso confessar-me. Preciso redimir-me. Preciso desabafar. Preciso aliviar esse peso que levo em minha estrutura côncava e assimétrica.

A era exata do meu nascimento já se perdeu em minha memória, pois foi a milhares de anos. Porém sei que quando os continentes começaram a se separar eu ainda era criança, pequena e inocente.

Lembro-me que cresci e cresci. Toquei o topo dos céus. Fui rainha majestosa entre as nuvens. Arauto das sombras nas relvas. Passei uma eternidade em simples contemplação, observando o vagaroso passar das eras. O tempo naquela época não era nada. O mundo era muito vazio. Minhas únicas companhias eram as nuvens, alguns pássaros e os raios de sol que de vez em quando vinham acariciar minhas encostas.
Notei que aos poucos eu ia perdendo pequenos pedaços de meu imenso corpo. O vento, que tocava suavemente em minha pele, cada vez mais levava fragmentos de minha estrutura. A deliciosa chuva que me refrescava, que de início pensei ser minha amiga, era uma traidora, a cada nova enxurrada quilos e quilos de minhas preciosas pedras desciam pelas minhas costas. As eras passaram e cada vez mais eu diminuía. Mas não havia com o que se preocupar. Apesar de eu ser desgastada com os anos meu corpo era titânico. Iria levar pelo menos uma eternidade até eu ser reduzida ao pó. Até lá eu já estaria cansada dessa contemplação que tenho pelas coisas. Cansaria de ver tudo do alto e estaria feliz em ser apenas um fragmento de pó. Levado pelo vento a lugares que eu jamais imaginara que existiam.

Foi então que eles chegaram. Não possuíam asas como as aves que faziam ninhos em meus braços. Não eram velozes como as cabras que subiam e desciam pelas minhas costas. Não eram fortes como os ursos que dormiam em minhas entranhas. Porém tinham presas de aço que devoravam minha estrutura como um bode estraçalha um ramo de vinha.
Eles vinham em bandos com suas garras e esculpiam meu precioso corpo. Mordiam, furavam, trituravam, estraçalhavam tudo o que havia em minha estrutura. Abriram diversos caminhos em meu ventre. Roubaram minhas preciosas gemas. Esmigalharam meu corpo, amarraram minhas partes íntimas e as levaram para longe, muito longe.
Não tiveram piedade de mim nem por um minuto. Dia após dia, ano após ano, século após século eles continuaram vindo e indo. Mordendo e perfurando. Prendendo e destruindo. Clamei aos céus por vingança, mas ninguém me ouviu. Eu já estava fraca e sem forças, não resisti. Num último suspiro minhas pernas fraquejaram; desmoronei. Minha queda ceifou a vida de muitos deles, mas minha vingança teve um alto preço.
A última parte de minha estrutura, o íntimo de meu ser, um enorme bloco de rocha, foi amarrado em um animal de madeira. Precisaram de dez deles para me erguer. E assim fui levada. Para longe, muito longe...

Vaguei em cima daquele animal por um longo caminho. Vi diversas daquelas criaturas. Eles derrubavam florestas, cortavam montanhas, cruzavam rios, construíam caminhos. Consideravam-se os donos de tudo e parecia que nada os podia impedir.
Fui levada cativa até as proximidades de uma daquelas imensas aglomerações que eles denominavam cidades. Fui posta lado a lado com outras de minha mesma raça, pobres rochas que acabaram tendo o mesmo fim. Nosso encaixe era perfeito. Nossa união impenetrável. Senti-me reconfortada por estar ao lado de minhas irmãs. Passávamos os dias lamentando nossa triste sorte e observando aquela maldita raça que nos destruíram e demoliram nossos tronos e reinos.

Eles entravam e saiam. Cultivavam os campos e conseguiam fazer com que eles produzissem plantas. Domesticavam animais. Criavam diversos utensílios e ferramentas das mais variadas funções. Trabalhavam todos os dias. Copulavam como os animais dos campos. Multiplicavam-se e multiplicavam-se. Pareciam não ter mais fim.
Questionávamos-nos porque estávamos ali. Porque eles precisariam de um círculo de rochas ao redor de sua preciosa colônia? Foi então que em uma madrugada escura, onde a bela lua recusou-se a mostrar sua face, que nós descobrimos nossa função.
Brotaram do silêncio da noite. Vieram aos milhares. Traziam tochas e espadas. Uma multidão sem fim. Porque atacaram até hoje desconheço. Mas vieram com uma força terrível. Eu e minhas irmãs lutamos para impedir sua entrada, mas foi em vão. Eles nos puseram ao chão com suas máquinas de guerra. Novamente voltávamos ao pó. Aquela noite foi longa. O choro de crianças mortas e jovens estupradas se ouviu durante toda a noite. O ferro e o fogo reinaram soberanos naquele dia.
A cidade fora dizimada. Seus habitantes presos ou mortos. Sua muralha... arrasada. O que restou de mim foi colocado no lombo de um jumento e lavado para outra terra distante.

Por um momento cheguei a sentir pena daquela raça. Sim, eles haviam nos destruídos é verdade. Mas o fizeram para proteger seus filhos e semelhantes. Semelhantes.... Que ironia não?! Aquela raça se autodestruía. Por que será que lutavam? Por que será que derramavam o próprio sangue sobre a terra? Por mais que me questiona-se não consegui encontrar a resposta.

Fui levada a cidade vencedora. Ela era muito maior, mais rica, mais bem construída. Não demorou muito para que me colocassem novamente junto de outras pedras e que nos unissem por uma massa gosmenta e úmida que em pouco tempo se secou e fortificou nossa união. Eles chamaram nosso conjunto de casa e um grupo de habitantes começou a residir sob nossa proteção.

Novamente nós os protegemos do frio da noite, do sol escaldante do dia, das chuvas de outono e da neve do inverno. Aquele grupo, rodeado por nossas paredes, levava uma vida tranqüila. O macho saía de manha e voltava só pela tardezinha. Trazia alimentos e os depositava nas mãos da fêmea. Ela, por sua vez, cuidava da casa, cozinhava, limpava e tecia roupas para seu parceiro e seus filhotes. Eram quatro, todos pequenos, corriam e faziam barulho o dia inteiro. Só se acalmavam quando o macho dominante retornava ao lar. Eles eram felizes. E comecei a simpatizar com aquela raça. Eles eram espertos, alegres, curiosos. Nem todos eram maus como no princípio eu pensara.

Ao contrário de nós, as rochas, eles não viviam eternamente. Eram muito intensos, porém muito frágeis. Morriam com a mesma facilidade com que morrem os animais. Vi vários grupos habitarem aquelas paredes. Nasciam, cresciam, geravam filhos e morriam. Sempre no mesmo círculo vicioso ao qual pertencem todos os animais da terra.
Eu estava velha, cansada, desgastada e em certo dia de tempestade não resisti à ação do vento. Rolei do alto do meu lugar e caí no meio deles. Eles, sem a mínima piedade, sem a menor consideração pelos anos de serviço, me lançaram fora.
Minha morada passou a ser as ruas e os becos. Fui chutada de lá para cá. Humilhada. Cuspida. Arremessada aos quatro ventos daquela imensa cidade. Não tinha mais a companhia de minhas irmãs. Era só. Não tinha ninguém.

Certo dia um deles me viu sozinha na rua. Era seguido por uma grande quantidade de pessoas. Apontou para mim e contou-lhes uma história estranha: de uma pedra angular que fora rejeitada pelos construtores. Gostei daquele homem, ele me parecia simples e bom. Todos os dias ele vinha ao mesmo lugar onde eu estava, contava a história da pedra angular e muitas outras, eu, ali sozinha e rejeitada, era sempre exemplo para suas histórias.

Lembro-me. Lembro-me como se fosse hoje. O pobre homem estava lá, contando suas histórias. Não estava fazendo nada de mau. Foi como uma chuva de verão inesperada. Em poucos instantes vários surgiram gritando e o arrastaram para o centro da multidão. Gritavam, xingavam, ameaçavam. Mas ele permanecia impassível, sereno...intocável. Foi quando então cinco dedos raivosos se fecharam sobre mim. Eu estava presa. Desesperada. Queria me libertar e não podia. A gritaria aumentava. A multidão estava cada vez mais furiosa. E então eu voei. Voei como um pássaro inexperiente que abre suas asas pela primeira vez. Voei como se não houvesse nada mais no universo. Voei como se às pedras fosse dado esse direito desde o seu nascimento. O ar passava sobre mim com uma velocidade assustadora. Quis parar. Recuar. Despedaçar-me. Mas não podia. Eu era inerte. O rosto do pobre homem se aproximou com uma rapidez macabra. Minha dura estrutura se chocou com o seu mole e suave crânio. Senti os ossos se quebrando sobre minha força. Senti seu sangue escorrendo sobre mim, banhando-me de pecado e injustiça. Caí ao chão com um baque surdo, desejando que todo o universo me engolisse e que eu desaparecesse da face da terra. Após minha queda uma chuva de minhas irmãs se seguiu.

Eu, que fui montanha, muralha e abrigo...

Perdoem-me.
EU FUI A PRIMEIRA PEDRA

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Casal do Metrô

Foi em uma dessas viagens entre o Paraíso e o São Bento que eu os avistei. Era um casal simples. Ele, um jovem de aproximadamente 25 anos, cabelos negros, curtos, ajeitados com gel num daqueles estilos artista de segunda categoria. Magro, pouco sorridente, um rosto comum entre tantos outros. Ela, com certeza, mais bela. Dona de lindos cabelos negros, lisos; iam até a meia altura do pescoço. Pele clara, mãos pequenas, sorriso encantador. Realmente encantador. Creio que foi isso que atraiu minha atenção para aquele casal. Foi como se só houvesse o sorriso e as outras partes da cena fossem sendo acrescentadas aos poucos. Impressionante como algumas partes do corpo humano conseguem se destacar mais do que outras. Todo o corpo daquela garota deve ter ficado com inveja do sorriso. Os olhos devem ter se desviado para esconder o seu orgulho. O nariz fino e bem feito deve ter se empinado, de leve, mostrando sua revolta. Os ouvidos com certeza se fecharam para evitar os sons daquele risinho arrogante e orgulhoso. Todas as partes daquela jovem tinham o seu encanto, porém o sorriso tinha uma vantagem sobre as suas irmãs: ele estava apaixonado. Afinal, quem resiste a um sorriso apaixonado? Ele é aquela velha mistura de prazer, malícia e infantilidade. Algo encantador, atraente, saboroso... inesquecível.

O casal permanecia enlaçado em um abraço que parecia ter começado no início do mundo e que demonstrava orgulhosamente não ter fim. O rapaz com o braço por cima dos ombros da garota e uma mão que jamais se fatigaria de acariciar aqueles cabelos. Ela, permanecia rendida. Entregava-se completamente pelo olhar.

Trocavam carícias infinitas. Beijos, leves toques das mãos, sussurros que o mundo jamais descobriria. O mundo. Senti pena do mundo naquele instante. Ele não os percebeu. Cada um estava absorto em seus próprios pensamentos. Uns liam livros que nunca conseguiriam descrever com perfeição aquela cena. Um senhor de óculos tinha uma cara de cansado que até parecia estar dormindo ,ou será que realmente estava dormindo? Uma garota olhava distraída pela janela e via as colunas da estação passarem com uma velocidade assustadora. Meus Deus! Quão mais belo era aquele casal do que as colunas que se moviam naquela confusão de cores caóticas.

Mundo, mundo pobre mundo. Se eu me chama-se Raimundo seria uma rima e não uma solução. Você está correto Drumond. Pelos deuses como você está correto! Não precisamos mais de rimas. Não precisamos mais de poesia. Abaixo aos romances e crônicas! Outorgamos-nos o título de senhores das artes e da compreensão e não conseguimos ver que os mais belos versos, a mais pura forma de arte transbordava daquele lindo casal. Quão triste é a nossa era. Quão tristes somos nós, cultores de Cássia Eller: poetas que não aprenderam a amar.

Fuga

Nesse mundo se sofre muito

Não quero mais viver aqui

Quero ir para outro lugar

Onde a alegria seja abundante

E onde haja menos poesia

O Grande Elefante

Recordo-me de uma história que ouvi quando estava na quinta série do colégio. Havia um grupo de cegos que certa vez encontrou um elefante. Como eles não podiam enxergar e queriam saber como era o elefante decidiram adotar a seguinte estratégia: cada cego se aproximaria do paquiderme e iria apalpá-lo para saber como era a sua forma física. O primeiro cego pegou a tromba do elefante e disse aos outros:

-Vejo que o elefante é um animal comprido e grosso como uma corda de barco.

O segundo cego apalpou uma das patas do animal e disse ao seu colega:

- Camarada, vejo que você se engana em sua descrição, pois percebo, com o meu tato, que o elefante é um ser poderoso, forte e alto como uma torre de marfim.

O terceiro por sua vez tateou a barriga do animal e falou:

- Concordo com sua opinião, realmente o elefante é forte e poderoso, mas você erra ao informar que ele é alto como uma torre. A mim parece que ele é largo como uma muralha.

Enfim o ultimo cego apanhou o rabo do elefante e comentou:

- Não é possível, além de cegos vocês devem ser loucos também. O elefante é simplesmente um ser comprido e fininho como um fio de varal.

Os 4 amigos cegos foram embora discutindo sobre o elefante, cada um com sua opinião própria e achando que os outros estavam completamente enganados.

Na realidade eu não me lembro qual era a moral da história, mas dez anos depois, enquanto eu divagava sobre a existência de Deus, essa ilustração me veio à mente. Creio que exista um Deus nesse mundo. Creio porque necessito crer que tudo isso não passa de uma mera obra do acaso. Creio porque a perfeição da natureza me assusta. Creio porque uma vida humana é nada perante o infinito e que tem que haver a existência de algo após os portões de Hades.
Partindo desse pressuposto, o de que Deus exista, não consigo afirmar mais nada sobre Ele. É bom? É ruim? Importa-se com as vidas das pessoas? Possui uma vontade? Quer que eu o louve com músicas, ou que coma do seu corpo ou beba do seu sangue? Morreu por mim ou simplesmente espera que eu o mate todos os dias? Concede-me várias vidas ou realmente só tenho essa? Afinal, como saber algo a mais sobre Deus?

Deus é um imenso elefante e nós somos os cegos. A humanidade apalpou diversas partes diferentes da estrutura de Deus, e cada um acha que Deus é realmente só aquilo que ele tocou. A religião foi a coisa mais arrogante que a humanidade inventou. Quem somos nós para aprisionarmos a entidade mais poderosa do universo em livros de algumas centenas de páginas? Quem somos nós para ousarmos enquadrar Deus em nossas limitações? Para descrevê-lo com nosso vocabulário falho? Para acreditarmos que sabemos qual é a sua vontade ou quais são seus planos para nós?
Todas as religiões tentam desvendar quem é esse ser mastodôntico que criou o universo, só que em sua arrogância não admitem serem cegos. Fazem da parte que eles tocaram o animal inteiro e desprezam, humilham ou taxam como loucos os que tocaram partes diferentes do mesmo ser. Por nossa falta de humildade e intolerância não paramos sequer para ouvir o que os outros cegos têm a dizer. Os séculos passam e continuamos acreditando que aquela minúscula área representa o inteiro e onipotente ser.

Deus é um imenso elefante e a única forma de conhecermos sua verdadeira estrutura é juntarmos as pequenas partes que cada um tateou durante sua cega vida.

Sonho Engarrafado

Poderia ter conquistado todos os reinos do mundo, mas o único que eu quis foi o seu

Terra farta, pastagens abundantes, fumaças de alegria brotando da lareira do seu jardim

Revela-me. Oh dama d´água

Revela-me quem és tu que vens me perturbar e me fazer comprar teus reinos de sonhos

Quem és tu que ficas aí a engarrafar amores que nunca foram teus

Ah, quem me dera ser a esfinge que te devora

Quem me dera ser o carrasco que te degola

Mas eu... quem sou eu... sou simplesmente eu

Aqui a esperar pela volta do teu reino

3:30 AM

Eu sinto

Sinto o mundo

Sinto o som da madrugada de são Paulo

Sinto a solidão de meu quarto onde a única companhia é a luminária

A noite se estende, as lembranças vem... o sono não chega

O chá preparado já se esfriou

A música e a poesia tocada através de conexões eletrônicas são as únicas vozes que ouço

O sonho de uma rede, um silencio e um bom livro me invade

Quero a paz e só isso, a paz e uma rede

Quem sou eu 2.0

Sou guerreio e poeta
Sou compositor
Sou também um atleta
Sou fruto do amor

De um casal inquieto
Que nunca deu certo
Nas idas e vindas
Desse imenso deserto

Eu sou mesmo assim
Um tanto disperso
Sem rima sem verso
Há quem ria de mim?

De mim poucos falam
Mas na memória eu fico
Nas suas vidas sem graça
Eu enriqueço o mito

Para eu tanto faz
Não sou de ninguém
Ou será que me engano?
Quem é que me tem?

Essa mistura sou eu
De pimenta e cominho
Um tempero absurdo
Que prepara seu próprio caminho

Definir-me não arrisco
Quem será que eu sou?
Resumir-me?! Quem sabe?
Eu... sou um simples trovador

Ode à Embriaguez

O álcool, simplesmente, é o que move os poetas

Que retira a máscara daqueles que realmente acham que são alguma coisa

A embriaguez revela os mais sórdidos recantos da identidade do ser humano

É num copo de uísque, em uma garrafa de cerveja, em uma dose de cachaça que encontramos aquilo que realmente somos.

Simples tiras de náilon

Vagabundas marionetes filosóficas

Ficamos assim, bêbados e nostálgicos.

Relembrando amores antigos, diversas paixões, inspiradas por Vinícius,cerradas em mansões.

PARE com isso! Jamais de ouvidos a um bêbado.

Nossa única ferramenta é o álcool e a saudade. Poderosas armas que em mãos de pessoas quaisquer se tornariam suicídio ou crime passional. Porém nas nossas vira poesia.

Bendita seja a embriaguez!

Que anula os meus conceitos

Que quebra a minha máscara

Que me inspira a verdade

Que me revela quem eu sou

Copo Vazio

Meu copo esta vazio

Nem uma gota ainda persiste em permanecer junto a mim

Gostaria nesta noite de frio ter a companhia de minhas lembranças

Mas mesmo elas trazem as suas imagens

Imagens que não quero esquecer

Imagens que mesmo querendo esquecer não me deixam

Imagens gravadas em carne com a alegria passageira dos dias de agosto

Tudo agora é cinza e frio

Tudo o que já alcancei parece pouco

Tudo o que ainda irei alcançar só reflete a luz do egoísmo e do desespero de tirar
você dos meus sonhos

Mas você não me deixa

E isso me dá a certeza dos meus próximos incertos e duvidosos passos

Pacto

" Nosso único e verdadeiro pecado é a impaciência."
Franz Kafka


É por não esperarmos para ouvir a opinião alheia que começamos uma guerra.
É por não esperarmos a sopa esfriar que queimamos a língua.
É por não esperarmos a natureza se recompor que destruímos a nós mesmos.
É por não esperarmos a chuva passar que nos molhamos.
É por não esperarmos o sorriso de uma criança que nunca olhamos para o lado.
É por não esperarmos a tinta secar que borramos o papel.
É por não esperarmos a velhice que morremos jovens.
É por não esperarmos a esperança que despedaçamos nossos sonhos.
Por isso, fiz um pacto com o demônio chamado paciência e constituí aliança com o anjo da tranqüilidade, para assim esperar, esperar você.

Mariposa Irriquieta

Paty entrou em minha vida como uma mariposa entra pela janela

Girou três vezes

Debateu-se inutilmente na lâmpada amarela

Espalhou seu pó sagrado pelo quarto

Depois saiu

Gigantes de Ferro

Os gigantes de ferro da minha cidade são mesmo assim; imensos.

Poderosas mãos que transportam milhares de volts de progresso.

Trazem a nós, mortais, as correntes com que voluntariamente prendemo-nos: a vida, a luz, a TV, o noticiário, a velocidade alucinante do caos.

Ícones misteriosos que dão aos velhos curiosidade; às crianças, imaginação; a todos, idolatria e dependência.

Os gigantes de ferro da minha cidade são sábios, não se movem, passam a vida em uma contemplação arrogante e insensível.

São indestrutíveis, imperecíveis ao tempo...eternos.

Assim são, os gigantes de ferro da minha cidade.

Ultima Noite

Eu tomo melancolia
Eu fumo compreensão
Um simples sorriso me guia
Em uma noite de solidão

Aqui, nesse canto escondido de bar, nessa valsa imperfeita de penumbra, eu gasto horas na mesma posição morta e catatônica. Vou deixando-me ficar. Esquecido da vida. Esquecido da morte. Esquecido da tristeza e agonia que moram do lado de fora daquelas portas de vidro e que um homem alto de terno não deixa aqui entrar.
Aqui, nesse meu pequeno reino solitário, minha retina é queimada pela visão de uma estátua sentada no balcão do bar. Suas pernas (que lindas pernas) se entrelaçam e se mesclam ao banquinho de mogno já descascado pelo tempo. Suas pequenas mãos manuseiam com maestria a taça de martini e o cigarro pequeno, fino e importado de algum país esquecido pelos jornais e noticiários. Uma deusa de vestido carmim. As cachoeiras cachos de seus cabelos morenos descem por suas costas nuas que o corte estilizado (bendito seja) permite que o mundo veja. Quem seria ela?

Eu tomo a agonia
Eu fumo a desolação
Uma fraca luz me guia
Em uma noite de escuridão

Com um gesto delicado ela chama o garçom. Simples gesto. Poderia guiar minha vida se quisesse, mas ela nem sequer olha a sua volta. Mais um martini. Quantos já terão ido dentro daquele lindo corpo, banhando seus órgãos internos, levando a essência de Baco à sua corrente sanguínea?
Ela, completamente perdida em si mesma está; e eu nela. A essa hora parece que todo o salão sumiu. Só restamos eu e ela. Estamos tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante. Um universo nos separa. Ela com sua beleza e depressão, eu com o peso da idade e com essa amargura ingrata.

Eu tomo a luz do dia
Eu fumo negro alcatrão
Uma deusa de bar me guia
Para a minha própria destruição

Vou falar com ela. Penso comigo mesmo. Não. Não teria a coragem. A natureza deu-me os versos, mas não a desenvoltura para declamá-los. Linda moça solitária, como gostaria de tê-la em meus braços. Aí você permanecerá. Isolada em si mesma. Uma jóia cobiçada lançada ao fundo do mar. É triste pensar assim. Porque não podes ser feliz? Porque não podes ser feliz ao meu lado? Serias feliz ao meu lado? Não. Creio que não. Nunca consegui trazer alegria aos outros. Afoguei minha vida em ciúmes, egoísmo e ganância. Há quanto tempo estou aqui? Já não sei mais. As horas se foram e eu nem vi. O garçom me olha com um olhar cansado. A vida se foi e eu nem vi. Quanto tempo ainda me resta? Morri? Não. Não morri, mas deixei de viver a muito tempo. Quando foi a última vez que sorri? Matei-me como um kamikaze suicida. Sufoquei um menino simples e alegre que vivia dentro de mim. Sufoquei-o até ele ficar roxo e mole, até abandonar a vida em minhas mãos. Sim. Foi nesse instante. Lembro-me melhor agora. Foi nesse instante que eu morri e uma massa de carne, autômato megalomaníaco da estupidez humana, foi lançada no mundo.
Adeus moça. Adeus garçom. Adeus bar. Adeus todos. Vou-me. Tenha mais sorte do que eu menina. Não sufoque essa pequena garotinha. Sorria. Seja feliz.


Eu tomo a poesia
Eu fumo a redenção
Uma louca avenida me guia
Para minha própria libertação

Aumento

“À uma arquiteta que me disse estar precisando”

O que eu ganho é pouco
É pouco e suado
É sujo e surrado
É triste e sem cor

O que eu ganho é nada
É despertador na madrugada
É humilhação na empreitada
De uma obra sem fim

O que eu ganho é piada
Sem rima sem graça
Sem público de praça
Que não me faz rir

O que eu ganho é honesto
Mesmo assim eu protesto
Se mato-me qual Hefesto
Porque tão pouco assim?

Não me faça essa cara
De repúdio e rancor
De certo já sabe
O que irei lhe propor

À sua porta eu bato
Sem vergonha ou lamento
Quero o que a mim já pertence
Quero um aumento!

Vaca de Presépio

Dizem que não sou de falar muito, minha existência é apenas observar; e é exatamente isso que tenho feito nesses 2000 anos.
Devo confessar, porém, que não tenho visto muito coisa. É tudo sempre igual. Fico o ano inteiro trancada dentro de um armário ou guarda roupa. Convivo com copos de champanhe, taças de vinho, uísques importados e lençóis velhos. Às vezes me embrulham em um maço de jornais com medo de que eu me quebre ou que eu veja o que eles guardam em seus recintos. Mas o que posso dizer? Sou apenas uma vaca de presépio.
Quando finalmente chegam os dias que antecedem o nascimento eles me retiram da escuridão e me colocam sob a luz do dia e das estrelas. Iluminam-me, me enfeitam, alguns me constroem, outros me compram, mas de qualquer forma estou sempre lá. Sou a Vaca do presépio.
Na montagem do cenário minha posição é a das mais variadas. Uns me colocam à esquerda da manjedoura, outros à direita, muitos poucos atrás da mesma , mas nunca no centro...nunca. Quem me dera ter nascido na Índia, eles sim sabem tratar uma vaca; mas fazer o que? Sou apenas uma vaca de presépio.
Então todos os anos são iguais. Os reis magos eu já sei de cor. Como alguém consegue receber todos os anos os mesmos presentes. Ouro até vai, mas incenso? E que diabos é essa tal de mirra? Mas eles estão sempre lá, presenteando aquele menino na manjedoura. Sentem por ele uma espécie de fascinação, talvez mais do que isso; consigo ver em seus rostos esculpidos, é como se o adorassem, como se o garoto fosse uma espécie de deus ou algo assim. Mas isso são loucuras de uma vaca é lógico, afinal que tipo de deus nasceria em uma manjedoura? E ainda mais sendo observado por uma vaca, uma vaca de presépio.
Seus pais também são um mistério. Sua mãe parece que está encantada, como se tivesse recebido o maior presente do mundo, oras é apenas um moleque, ele está limpo e sorrindo, é como o representam no presépio. Mas na verdade não foi bem assim que aconteceu, ele estava sujo de sangue. E sorrindo!? Onde já se viu? Esses humanos são mesmo esquisitos, onde no mundo uma criança recém nascida fica sorrindo, ela esperneia como se estivesse com o diabo no corpo. O pai, em minha opinião, é a melhor figura desse teatro. Sua feição é ainda um mistério que ao longo desse anos não consegui decifrar, mas eu acho que ele está em dúvida. É um rosto que mistura dúvida e tentativa de simular uma alegria. O que será que ele pensa? Provavelmente deve achar que o filho não é dele ou deve estar se perguntando se o moleque vai viver por muito tempo, afinal estamos em um presépio e o garoto está deitado em uma manjedoura, as condições de higiene não são as das melhores. Mas vai saber né? Sou apenas uma vaca mesmo.
Mas o mais engraçado são as pessoas. Param nas vitrines dos shoppings, nos parques, nos cantos das casas e ficam nos observando, admiradas e boquiabertas. Alguns, é lógico, não dão nem bola, passam direto, mas muitos param e até surgem alguns comentários a meu respeito:
-Olha mãe, que vaquinha bonitinha.
-Olha a vaquinha que graça.
Mas todas as atenções, pra variar, são pro tal do menino jesus. E todo ano é a mesma ladainha:
- Olha o menino Jesus.
- Olha que lindo o menino Jesus.
-Olha nosso salvador.
Salvador de quê afinal? É só um garoto meu deus. O que deu nesse pessoal? O melhor é o que dizem da mãe do moleque:
- Olha a virgem Maria.
Essa é boa viu! Posso até ser uma vaca, mas não sou boba, entendo dessas coisas. Mas como pode essas pessoas pensarem isso? A danada da mulher acabou de ter um filho gente... como vocês me dizem que ela é virgem. Que parte do “ ter um filho “ esses caras não entendem? Mas toda essa palhaçada dura pouco. Ficamos um tempo expostos e depois voltamos pros armários e guarda roupas, alguns até nos destroem para nos construir no próximo ano. Tudo volta ao normal, nós voltamos pro esquecimento e os humanos pra suas vidas normais, nada muda, tudo fica exatamente igual como estava antes. Esse teatro de nascimento não muda a rotina das pessoas e nem a nossa, mas esqueçam; meus comentários não valem muita coisa, afinal, sou apenas uma vaca... uma vaca de presépio.

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O objetivo deste blog é simplesmente ter um local grátis onde eu possa armazenar os meus textos e as minha músicas.
Se agradarem fico feliz, caso contrário paciência.