domingo, 26 de setembro de 2010

Aqui não é Jerusalém!

Era uma tarde quente. O sol ardente queimava as folhas de latão do trailer. O ar dentro daquela fornalha estava parado e o ambiente era de rendição àquela sonolência inevitável que vem nos assaltar depois do almoço.
Matias saiu de sua morada errante e foi para fora para tomar um pouco de ar fresco. Abriu a porta. Sentou-se na escadinha da entrada e observou os outros trailers que estavam posicionados em círculo. Coçou o volumoso bigode. Acendeu um cigarro. Suspirou. Aquilo tudo era dele.
-Dez anos. Pensou consigo. Ou teriam sido mais? Já não se recordava.
Fazia um bom tempo que já estavam na estrada. Percorriam as cidades do nordeste de ponta a ponta levando o espetáculo a toda cidade em que a prefeitura estivesse disposta a financiar. Um dinheirinho bom e honesto, sem dúvida. E ainda contribuíam para a proliferação da arte itinerante, coisa que no Brasil estava cada vez mais raro.
Apagou o cigarro na grama. Levantou-se e foi até o trailler do Augusto, o contra regra. Bateu três vezes, de leve, na porta. Um rosto calvo e de óculos apareceu primeiro, logo em seguida um corpo magro e maltratado pelo tempo veio lhe recepcionar
- Matias! Está quase tudo pronto!
-É bom que esteja mesmo Augusto. A encenação da Paixão de Cristo tem que ser impecável.
- E será meu senhor. E será.
- As fantasias dos romanos estão prontas?
- Estão sim senhor.
- E os preparativos para a crucificação? A cruz, o sangue e toda aquela parafernália de iluminação?
- Faltam só mais alguns ajustes senhor. Mas em dois dias estará tudo como o senhor pediu.
-Perfeito Augusto. Perfeito. Concluiu Matias esfregando empolgadamente as mãos.
A encenação da Paixão seria dali a três dias. Ele havia ensaiado a trupe exaustivamente. O figurino estava pronto. Tudo corria como o planejado.
- Essa vai ser uma encenação e tanto meu amigo. Pensou alto Matias.
Augusto simplesmente concordou com um leve aceno de cabeça. Gostava do patrão pensou ele. Apesar de ter aquele jeito de general rabugento era uma boa pessoa.
- Tu sabe onde está Clementina ?
-Não senhor. Respondeu timidamente o contra regra. A vi sair às nove e poucas da manhã. Carregava o rosário. De certa foi à igreja.
-Irei lá verificar então. Ta precisando de algo da cidade Augusto?
-Não senhor, muito obrigado.
Igreja, onde já se viu, pensava Matias consigo mesmo. Clementina nunca fora religiosa. Ia às missas de vez em quando, mas era somente em épocas festivas ou quando havia quermesse. O que tinha dado nela para querer ir à igreja todos os dias?
Já havia alguns dias que Matias vinha notando um comportamento estranho em sua companheira. Saía todas as manhãs para ir à igreja. Voltava tarde e nunca comentava muito coisa do que tinha se passado durante o dia. Quando questionada sobre o que estivera fazendo o dia inteiro dava respostas vagas e procurava mudar rapidamente de assunto.
Aquela situação estava por começar a incomodar Matias de uma maneira nada confortável. Jurava que podia ouvir risinhos escarnecedores por suas costas quando ele passava entre os trailers. Será que Clementina estava traindo-o? Não, ela não poderia? Ou será que...? Mas se fosse com quem seria? Matias vinha se torturando com essas suspeitas.
Talvez para tirar aquela preocupação da cabeça ou por mera curiosidade ele resolveu ir até a tal igreja que ficava não mais que alguns quilômetros dali. Foi até a casa, apanhou as chaves do carro e se dirigiu ao local.
Entrando na pequena capela de estilo barroco Matias se ajoelhou e fez o sinal da cruz. Espiou por entre os bancos, mas só pode ver um par de velhinhas já tão carcomidas pelo tempo que seus corpos pareciam se mesclar com os bancos desgastados e as paredes sem reboco.
Onde estaria Clementina? Pensou Matias.
Foi até o altar e benzeu-se novamente. Voltou até a porta da igreja e ficou contemplando o teto caindo aos pedaços. O que será que Clementina via de tão especial em um lugar como aquele.
Foi então que um senhor baixinho, calvo e com um sorriso que parecia querer abraçar o mundo se aproximou e lhe perguntou:
-Procura algo bom irmão?
Ao contemplar aquela criatura amável Matias logo reconheceu ser ele o padre da pequena capela devido as suas vestes sacerdotais.
- Boa tarde seu padre. Tudo bom com o senhor? Olha, vim aqui procurar minha mulher? É uma morena alta e esbelta. Cabelos cacheados a altura dos ombros e olhos bem castanhos. Têm vindo muito a essa igreja ultimamente. O senhor com certeza já deve tê-la visto não?
- Rezo as missas aqui todos os domingos meu jovem. E conduzo o grupo de oração na quarta e na sexta. E posso jurar pelo nosso senhor Jesus Cristo e sua santa Mãe que nunca vi tal mulher.
A raiva subiu do peito para a cabeça de Matias mais rápido que um tiro de escopeta. Tentou se controlar, mas não conseguiu
- Como assim? O senhor está me dizendo que minha mulher nunca veio a essa igreja?! Que ela está me traindo?! É isso o que o senhor está insinuando? Esbravejou Matias com o pobre velhinho
- De modo algum meu senhor. De onde o senhor tirou essa idéia? Só disse que nunca vi a mulher que o senhor me descreveu. Afinal não estou o tempo todo aqui na igreja. É possível que ela tenha vindo em outro horário também. Não é verdade?
O assustado padre não conseguiu terminar seu discurso, pois Matias já saíra marchando de volta ao automóvel. Entrou descontrolado no veículo e bateu a porta com tanta força que se o carro fosse um pouco mais frágil ela teria ficado por lá mesmo.
Saiu desgovernado invocando todos os demônios que conhecia e xingando Clementina de nomes tão esdrúxulos que por motivo de censura e bom senso creio não ser necessário relatar aqui.
Sua fúria era tanta que decidiu não ir para casa de imediato. Se encontrasse Clementina naquele estado de espírito sabe-se lá Deus o que poderia acontecer. Estacionou no botequim para tomar uma e tentar relaxar a cabeça. Quem sabe isso tudo não era apenas um mal entendido?
Matias sentou-se e ordenou uma cerveja gelada, coisa bem difícil por aquelas bandas devido aos péssimos estados dos refrigeradores, e um rabo de galo pra acompanhar.
Tomou uma, duas, três e na quarta sua fúria já tinha passado. Estavam juntos à quase dois anos. Ele era rude, verdade, mas nunca tratara mal Clementina. Tudo não deveria ser mais que um mal entendido, ele iria para casa conversar com ela e ela lhe diria que ia na igreja rezar de manhã e ficava passeando pela cidade durante o resto do dia, ou então que o grupo de oração tinha se mudado para a casa de uma das irmãs de lá e por isso o padre não a vira na capela, ou quem sabe...
Derrepente, como um ladrão que vem de madrugada, a espada de Demóclites caiu sobre a cabeça do nosso pobre Matias. Não poderia haver dúvida. Sim era ela. Bem ali. A apenas alguns metros do bar. Passeando de mãos dadas com um moço jovem e de cabelos longos que muito lhe lembrava um personagem bem conhecido.
- Meu Deus. Pensou Matias. Minha mulher está me traindo com Jesus!
Na verdade, o “Jesus”, era o Jorge, personagem principal do teatro de Matias. Matias confiava em sua mulher cegamente e por este motivo nunca dera muita atenção aos longos olhares que ele lançava a sua mulher diariamente.
-Maldito seja. Se eu o arrebento agora quem vai substituí-lo no papel principal? A peça é daqui a três dias apenas.
Foi quando subitamente, como acontece com aqueles gênios que incompreensivelmente tem um espasmo de criatividade, Matias teve uma idéia tão genial e ao mesmo tempo tão diabólica que nem sequer lembrou-se de seguir os dois pombinhos para ver se aquele namorico tinha ido a coisas mais sérias.
Bebeu todas no bar. Voltou pra casa completamente embriagado. Entrou no trailer. Clementina estava ali o esperando.
- Sua vagabunda. Me traindo na cara de todo cidade. Some da minha frente.
Clementina, vendo que sua traição tinha sido descoberta e que Matias já estava completamente bêbado e violento. Juntou suas coisas o mais rápido que pode e saiu correndo do trailer do dono do teatro.
Matias se jogou na cama e chorou amargamente sua má sorte.

Na manhã seguinte, Matias acordara tendo a certeza que tivera um sonho ruim. Aquela história de ter pego sua namorada com o seu ator principal só poderia ser fruto de sua cabeça que agora latejava bruscamente por causa da ressaca.
Ao levantar-se e andar pela casa, ao ver à desordem das coisas, roupas espalhadas, cadeiras e panelas pelo chão. Ele novamente se lembrou na noite anterior. Sim, era a mais pura verdade. Seu relacionamento tinha se espatifado como uma jaca ao se encontrar com o solo. Subitamente, o plano que lhe ocorrera no botequim, também veio à sua memória.
-Ah Jorge! Seu safado sem vergonha. Me roubou a mulher né. Espere pra ver.
Matias se trancou em seu trailler e não falou mais nada até o dia da estréia da peça.
A Paixão de Cristo seria encenada ao ar livre, em um grande espaço reservado pela prefeitura. A cidade inteira estaria lá. O destaque principal seria dado ao caminho do Calvário, onde Jesus carregaria a sua cruz por uma extensão de quase duzentos metros, iluminada apenas por tochas que acompanhavam o caminho com suas luzes bruxuleantes.
Esse é o meu grande momento, pensava Jorge consigo. Conseguira aquele papel sem muito esforço ele confessava. Foi só ter arrastado asa para a namorada do patrão que logo ela fez a cabeça do corno para que ele o contrata-se.
-Esse Matias é mesmo um paspalhão, divertia-se Jorge.
A peça transcorria perfeitamente. A multidão se emocionava a cada cena e muitas lágrimas rolaram quando Jesus foi preso e condenado. Chegará então o famoso momento do Calvário.
Jorge ia caminhando com sua pesada cruz pelo caminho de sua condenação. Um urro partiu do centurião que estava às suas costas.
-Vamos rei dos judeus!
Uma tremenda de uma chicotada lhe atingira o lombo de uma forma tão dolorida que ele quase perdeu o equilíbrio e caiu.
-Caramba Ricardo, bate mais devagar. Sussurrou Jorge por cima dos ombros.
-Ta cansado Jesus.
E mais uma chicotada lhe comeu o coro das costas. Jorge olhou para trás para dar uma bronca em Ricardo que lhe batia com tamanha violência e que surpresa! Era o próprio Matias que interpretava o centurião.
Xingamentos e chicotadas comiam soltas por todo o caminho. As costas de Jorge já estavam lavadas em sangue, a multidão se horrorizava com a vivacidade da encenação e Matias ria como um demônio, aproveitando cada momento da sua vingança.
Foi então que Jesus não pode mais suportar. Largou a cruz e partiu pra cima do centurião aos murros e pontapés.
A multidão, enraivecida gritava:
-Vai Jesus! Pega ele! Mostra pra ele que aqui não é Jerusalém. Aqui é a PARAÍBA!

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