Recordo-me de uma história que ouvi quando estava na quinta série do colégio. Havia um grupo de cegos que certa vez encontrou um elefante. Como eles não podiam enxergar e queriam saber como era o elefante decidiram adotar a seguinte estratégia: cada cego se aproximaria do paquiderme e iria apalpá-lo para saber como era a sua forma física. O primeiro cego pegou a tromba do elefante e disse aos outros:
-Vejo que o elefante é um animal comprido e grosso como uma corda de barco.
O segundo cego apalpou uma das patas do animal e disse ao seu colega:
- Camarada, vejo que você se engana em sua descrição, pois percebo, com o meu tato, que o elefante é um ser poderoso, forte e alto como uma torre de marfim.
O terceiro por sua vez tateou a barriga do animal e falou:
- Concordo com sua opinião, realmente o elefante é forte e poderoso, mas você erra ao informar que ele é alto como uma torre. A mim parece que ele é largo como uma muralha.
Enfim o ultimo cego apanhou o rabo do elefante e comentou:
- Não é possível, além de cegos vocês devem ser loucos também. O elefante é simplesmente um ser comprido e fininho como um fio de varal.
Os 4 amigos cegos foram embora discutindo sobre o elefante, cada um com sua opinião própria e achando que os outros estavam completamente enganados.
Na realidade eu não me lembro qual era a moral da história, mas dez anos depois, enquanto eu divagava sobre a existência de Deus, essa ilustração me veio à mente. Creio que exista um Deus nesse mundo. Creio porque necessito crer que tudo isso não passa de uma mera obra do acaso. Creio porque a perfeição da natureza me assusta. Creio porque uma vida humana é nada perante o infinito e que tem que haver a existência de algo após os portões de Hades.
Partindo desse pressuposto, o de que Deus exista, não consigo afirmar mais nada sobre Ele. É bom? É ruim? Importa-se com as vidas das pessoas? Possui uma vontade? Quer que eu o louve com músicas, ou que coma do seu corpo ou beba do seu sangue? Morreu por mim ou simplesmente espera que eu o mate todos os dias? Concede-me várias vidas ou realmente só tenho essa? Afinal, como saber algo a mais sobre Deus?
Deus é um imenso elefante e nós somos os cegos. A humanidade apalpou diversas partes diferentes da estrutura de Deus, e cada um acha que Deus é realmente só aquilo que ele tocou. A religião foi a coisa mais arrogante que a humanidade inventou. Quem somos nós para aprisionarmos a entidade mais poderosa do universo em livros de algumas centenas de páginas? Quem somos nós para ousarmos enquadrar Deus em nossas limitações? Para descrevê-lo com nosso vocabulário falho? Para acreditarmos que sabemos qual é a sua vontade ou quais são seus planos para nós?
Todas as religiões tentam desvendar quem é esse ser mastodôntico que criou o universo, só que em sua arrogância não admitem serem cegos. Fazem da parte que eles tocaram o animal inteiro e desprezam, humilham ou taxam como loucos os que tocaram partes diferentes do mesmo ser. Por nossa falta de humildade e intolerância não paramos sequer para ouvir o que os outros cegos têm a dizer. Os séculos passam e continuamos acreditando que aquela minúscula área representa o inteiro e onipotente ser.
Deus é um imenso elefante e a única forma de conhecermos sua verdadeira estrutura é juntarmos as pequenas partes que cada um tateou durante sua cega vida.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
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"Os cegos e o elefante"
ResponderExcluirpor John Godfrey Saxe (1816-1887).
Eis um poema imortal! Ele talvez seja tão famoso e citado por servir para explicar qualquer coisa que não entendemos direito e para qual cada um tem um opinião distinta. Ou seja, para explicar quase tudo hehe.
Eu tb ouvi esta história quando era criança e também não me lembro qual era o contexto. Já tinha lido este seu texto e me deparei com o poema denovo na introdução do "Safári de Estratégia" do Mindzberg.
Eis um poema utilizado por muita gente boa pra falar de muita coisa boa.