segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Primeira Pedra

Perdoem-me.
Por mais longa que seja, eu preciso contar minha história. Preciso confessar-me. Preciso redimir-me. Preciso desabafar. Preciso aliviar esse peso que levo em minha estrutura côncava e assimétrica.

A era exata do meu nascimento já se perdeu em minha memória, pois foi a milhares de anos. Porém sei que quando os continentes começaram a se separar eu ainda era criança, pequena e inocente.

Lembro-me que cresci e cresci. Toquei o topo dos céus. Fui rainha majestosa entre as nuvens. Arauto das sombras nas relvas. Passei uma eternidade em simples contemplação, observando o vagaroso passar das eras. O tempo naquela época não era nada. O mundo era muito vazio. Minhas únicas companhias eram as nuvens, alguns pássaros e os raios de sol que de vez em quando vinham acariciar minhas encostas.
Notei que aos poucos eu ia perdendo pequenos pedaços de meu imenso corpo. O vento, que tocava suavemente em minha pele, cada vez mais levava fragmentos de minha estrutura. A deliciosa chuva que me refrescava, que de início pensei ser minha amiga, era uma traidora, a cada nova enxurrada quilos e quilos de minhas preciosas pedras desciam pelas minhas costas. As eras passaram e cada vez mais eu diminuía. Mas não havia com o que se preocupar. Apesar de eu ser desgastada com os anos meu corpo era titânico. Iria levar pelo menos uma eternidade até eu ser reduzida ao pó. Até lá eu já estaria cansada dessa contemplação que tenho pelas coisas. Cansaria de ver tudo do alto e estaria feliz em ser apenas um fragmento de pó. Levado pelo vento a lugares que eu jamais imaginara que existiam.

Foi então que eles chegaram. Não possuíam asas como as aves que faziam ninhos em meus braços. Não eram velozes como as cabras que subiam e desciam pelas minhas costas. Não eram fortes como os ursos que dormiam em minhas entranhas. Porém tinham presas de aço que devoravam minha estrutura como um bode estraçalha um ramo de vinha.
Eles vinham em bandos com suas garras e esculpiam meu precioso corpo. Mordiam, furavam, trituravam, estraçalhavam tudo o que havia em minha estrutura. Abriram diversos caminhos em meu ventre. Roubaram minhas preciosas gemas. Esmigalharam meu corpo, amarraram minhas partes íntimas e as levaram para longe, muito longe.
Não tiveram piedade de mim nem por um minuto. Dia após dia, ano após ano, século após século eles continuaram vindo e indo. Mordendo e perfurando. Prendendo e destruindo. Clamei aos céus por vingança, mas ninguém me ouviu. Eu já estava fraca e sem forças, não resisti. Num último suspiro minhas pernas fraquejaram; desmoronei. Minha queda ceifou a vida de muitos deles, mas minha vingança teve um alto preço.
A última parte de minha estrutura, o íntimo de meu ser, um enorme bloco de rocha, foi amarrado em um animal de madeira. Precisaram de dez deles para me erguer. E assim fui levada. Para longe, muito longe...

Vaguei em cima daquele animal por um longo caminho. Vi diversas daquelas criaturas. Eles derrubavam florestas, cortavam montanhas, cruzavam rios, construíam caminhos. Consideravam-se os donos de tudo e parecia que nada os podia impedir.
Fui levada cativa até as proximidades de uma daquelas imensas aglomerações que eles denominavam cidades. Fui posta lado a lado com outras de minha mesma raça, pobres rochas que acabaram tendo o mesmo fim. Nosso encaixe era perfeito. Nossa união impenetrável. Senti-me reconfortada por estar ao lado de minhas irmãs. Passávamos os dias lamentando nossa triste sorte e observando aquela maldita raça que nos destruíram e demoliram nossos tronos e reinos.

Eles entravam e saiam. Cultivavam os campos e conseguiam fazer com que eles produzissem plantas. Domesticavam animais. Criavam diversos utensílios e ferramentas das mais variadas funções. Trabalhavam todos os dias. Copulavam como os animais dos campos. Multiplicavam-se e multiplicavam-se. Pareciam não ter mais fim.
Questionávamos-nos porque estávamos ali. Porque eles precisariam de um círculo de rochas ao redor de sua preciosa colônia? Foi então que em uma madrugada escura, onde a bela lua recusou-se a mostrar sua face, que nós descobrimos nossa função.
Brotaram do silêncio da noite. Vieram aos milhares. Traziam tochas e espadas. Uma multidão sem fim. Porque atacaram até hoje desconheço. Mas vieram com uma força terrível. Eu e minhas irmãs lutamos para impedir sua entrada, mas foi em vão. Eles nos puseram ao chão com suas máquinas de guerra. Novamente voltávamos ao pó. Aquela noite foi longa. O choro de crianças mortas e jovens estupradas se ouviu durante toda a noite. O ferro e o fogo reinaram soberanos naquele dia.
A cidade fora dizimada. Seus habitantes presos ou mortos. Sua muralha... arrasada. O que restou de mim foi colocado no lombo de um jumento e lavado para outra terra distante.

Por um momento cheguei a sentir pena daquela raça. Sim, eles haviam nos destruídos é verdade. Mas o fizeram para proteger seus filhos e semelhantes. Semelhantes.... Que ironia não?! Aquela raça se autodestruía. Por que será que lutavam? Por que será que derramavam o próprio sangue sobre a terra? Por mais que me questiona-se não consegui encontrar a resposta.

Fui levada a cidade vencedora. Ela era muito maior, mais rica, mais bem construída. Não demorou muito para que me colocassem novamente junto de outras pedras e que nos unissem por uma massa gosmenta e úmida que em pouco tempo se secou e fortificou nossa união. Eles chamaram nosso conjunto de casa e um grupo de habitantes começou a residir sob nossa proteção.

Novamente nós os protegemos do frio da noite, do sol escaldante do dia, das chuvas de outono e da neve do inverno. Aquele grupo, rodeado por nossas paredes, levava uma vida tranqüila. O macho saía de manha e voltava só pela tardezinha. Trazia alimentos e os depositava nas mãos da fêmea. Ela, por sua vez, cuidava da casa, cozinhava, limpava e tecia roupas para seu parceiro e seus filhotes. Eram quatro, todos pequenos, corriam e faziam barulho o dia inteiro. Só se acalmavam quando o macho dominante retornava ao lar. Eles eram felizes. E comecei a simpatizar com aquela raça. Eles eram espertos, alegres, curiosos. Nem todos eram maus como no princípio eu pensara.

Ao contrário de nós, as rochas, eles não viviam eternamente. Eram muito intensos, porém muito frágeis. Morriam com a mesma facilidade com que morrem os animais. Vi vários grupos habitarem aquelas paredes. Nasciam, cresciam, geravam filhos e morriam. Sempre no mesmo círculo vicioso ao qual pertencem todos os animais da terra.
Eu estava velha, cansada, desgastada e em certo dia de tempestade não resisti à ação do vento. Rolei do alto do meu lugar e caí no meio deles. Eles, sem a mínima piedade, sem a menor consideração pelos anos de serviço, me lançaram fora.
Minha morada passou a ser as ruas e os becos. Fui chutada de lá para cá. Humilhada. Cuspida. Arremessada aos quatro ventos daquela imensa cidade. Não tinha mais a companhia de minhas irmãs. Era só. Não tinha ninguém.

Certo dia um deles me viu sozinha na rua. Era seguido por uma grande quantidade de pessoas. Apontou para mim e contou-lhes uma história estranha: de uma pedra angular que fora rejeitada pelos construtores. Gostei daquele homem, ele me parecia simples e bom. Todos os dias ele vinha ao mesmo lugar onde eu estava, contava a história da pedra angular e muitas outras, eu, ali sozinha e rejeitada, era sempre exemplo para suas histórias.

Lembro-me. Lembro-me como se fosse hoje. O pobre homem estava lá, contando suas histórias. Não estava fazendo nada de mau. Foi como uma chuva de verão inesperada. Em poucos instantes vários surgiram gritando e o arrastaram para o centro da multidão. Gritavam, xingavam, ameaçavam. Mas ele permanecia impassível, sereno...intocável. Foi quando então cinco dedos raivosos se fecharam sobre mim. Eu estava presa. Desesperada. Queria me libertar e não podia. A gritaria aumentava. A multidão estava cada vez mais furiosa. E então eu voei. Voei como um pássaro inexperiente que abre suas asas pela primeira vez. Voei como se não houvesse nada mais no universo. Voei como se às pedras fosse dado esse direito desde o seu nascimento. O ar passava sobre mim com uma velocidade assustadora. Quis parar. Recuar. Despedaçar-me. Mas não podia. Eu era inerte. O rosto do pobre homem se aproximou com uma rapidez macabra. Minha dura estrutura se chocou com o seu mole e suave crânio. Senti os ossos se quebrando sobre minha força. Senti seu sangue escorrendo sobre mim, banhando-me de pecado e injustiça. Caí ao chão com um baque surdo, desejando que todo o universo me engolisse e que eu desaparecesse da face da terra. Após minha queda uma chuva de minhas irmãs se seguiu.

Eu, que fui montanha, muralha e abrigo...

Perdoem-me.
EU FUI A PRIMEIRA PEDRA

Um comentário:

  1. Como eu disse, eu simpatizei coma pedra desde que você me contou a história pela primeira vez.
    Ainda insisto que a imagem da primeira pedra remete muito fortemente a Jesus e, nesse caso, ele nunca foi lançada.
    Mas de qualquer maneira ficou muito bom, Parabéns.

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