Foi em uma dessas viagens entre o Paraíso e o São Bento que eu os avistei. Era um casal simples. Ele, um jovem de aproximadamente 25 anos, cabelos negros, curtos, ajeitados com gel num daqueles estilos artista de segunda categoria. Magro, pouco sorridente, um rosto comum entre tantos outros. Ela, com certeza, mais bela. Dona de lindos cabelos negros, lisos; iam até a meia altura do pescoço. Pele clara, mãos pequenas, sorriso encantador. Realmente encantador. Creio que foi isso que atraiu minha atenção para aquele casal. Foi como se só houvesse o sorriso e as outras partes da cena fossem sendo acrescentadas aos poucos. Impressionante como algumas partes do corpo humano conseguem se destacar mais do que outras. Todo o corpo daquela garota deve ter ficado com inveja do sorriso. Os olhos devem ter se desviado para esconder o seu orgulho. O nariz fino e bem feito deve ter se empinado, de leve, mostrando sua revolta. Os ouvidos com certeza se fecharam para evitar os sons daquele risinho arrogante e orgulhoso. Todas as partes daquela jovem tinham o seu encanto, porém o sorriso tinha uma vantagem sobre as suas irmãs: ele estava apaixonado. Afinal, quem resiste a um sorriso apaixonado? Ele é aquela velha mistura de prazer, malícia e infantilidade. Algo encantador, atraente, saboroso... inesquecível.
O casal permanecia enlaçado em um abraço que parecia ter começado no início do mundo e que demonstrava orgulhosamente não ter fim. O rapaz com o braço por cima dos ombros da garota e uma mão que jamais se fatigaria de acariciar aqueles cabelos. Ela, permanecia rendida. Entregava-se completamente pelo olhar.
Trocavam carícias infinitas. Beijos, leves toques das mãos, sussurros que o mundo jamais descobriria. O mundo. Senti pena do mundo naquele instante. Ele não os percebeu. Cada um estava absorto em seus próprios pensamentos. Uns liam livros que nunca conseguiriam descrever com perfeição aquela cena. Um senhor de óculos tinha uma cara de cansado que até parecia estar dormindo ,ou será que realmente estava dormindo? Uma garota olhava distraída pela janela e via as colunas da estação passarem com uma velocidade assustadora. Meus Deus! Quão mais belo era aquele casal do que as colunas que se moviam naquela confusão de cores caóticas.
Mundo, mundo pobre mundo. Se eu me chama-se Raimundo seria uma rima e não uma solução. Você está correto Drumond. Pelos deuses como você está correto! Não precisamos mais de rimas. Não precisamos mais de poesia. Abaixo aos romances e crônicas! Outorgamos-nos o título de senhores das artes e da compreensão e não conseguimos ver que os mais belos versos, a mais pura forma de arte transbordava daquele lindo casal. Quão triste é a nossa era. Quão tristes somos nós, cultores de Cássia Eller: poetas que não aprenderam a amar.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
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Privilegiados aqueles que têm essa sensibilidade pra perceber momentos como esses.
ResponderExcluirMas se o mundo não percebeu o casal... o casal também se absteve do mundo.
Afinal...nesses carinhos todos, quem é que se importa com o que acontece lá fora?
O que sentimos, apaixonados, já basta.
E garanto que o sorriso da garota não seria o mesmo sem o seu amado;)
(ah, adorei essa sua idéia do blog. Tava na hora de colocar pro mundo seus textos;)
Da hora Sauron!
ResponderExcluirMuito bom mano. Perceber cenas importantes em meio à uma imagem rotineira é uma qualidade dos bons artistas tanto quanto dos bons empreendedores.
ResponderExcluirMas como tá todo mundo puxando seu saco pq vc é bonitinho vou fazer um contra peso aqui.
Vc viu a beleza de um casal sem graça, o que já é muito mais do que a maioria, mas e todo o resto? Será que todas as outras pessoas do metrô realmente eram cinzas e insossas como vc as pintou no conto? Será que elas estavam tão apagadas quando vc enxergou? Ou será que elas podiam ter alguma beleza complexa e enscondida que você deixou passar simplesmente pq estava encantando por ter visto a beleza do casalzinho? Novamente, sua visão foi notável, mas convenhamos, um casal fofinho metro pode ser considerado algo fofo meio que por defenição. Você foi bom. Mas o ótimo é inimigo do bom.
Da próxima vez que estiver passando por um beco tente ver a beleza nos dentes podres de rato sujo.